Linda, cheia de força e de energia. Foi assim que a conheci. A primeira a ajudar. A primeira a trabalhar. A primeira a dar a mão a quem mais ninguém deu. A mulher como todas gostariam de ser, sem preconceitos nem manias.
Um dia, caiu a máscara. Já nem forças mínimas para segurá-la. De mulher alegre e pronta para enfrentar qualquer desafio com cantos e sorrisos, descobre-se aterrorizada. Vai reencontrar brevemente os filhos passada uma década. Deixou os filhos, há 10 anos a trás com a mãe, a procura de uma vida melhor para eles. Atravessou o oceano e nunca mais os viu. Nunca perdeu contacto nem deixou de os sustentar. A distancia. Ganhou-se, integrou-se adaptou-se com este objectivo. De depressão em depressão, de frustração em frustração, de remorsos em remorsos, de tempo que passa e não pára, cada dia mais infeliz, foi sobrevivendo até chegar a hoje. Decidir ir buscá-los, daqui a 30 dias, passados 10 anos. Está doente, completamente doente, num estado lastimável misturado de felicidade, de vergonha, de ser mãe outra vez (nunca deixou de o ser, nem um único segundo mas no sentido das dores de parto), de consciência de culpada de abandono e de redescoberta, de apreensão e de impaciência, de amor e de receio de rejeição e de incompreensão.
Tão mal que pela primeira vez, nem as minhas palavras têm remédio.
Quem tem direito de julgar seja quem for? Quem seria capaz de fazer tal sacrifício em nome de pretender dar o melhor? Só quem vive é que sabe. Cada história é uma história. Cada antecedente do percurso de cada um é pessoal e intransmissível. Ninguém melhor que a própria pessoa sabe o que sofre, o que finge, o que vive. Nem sempre é explicável. Nem sempre é visível. Nem sempre é sentido.